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As ondas do tempo

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O tempo leva, o tempo traz Inexoravelmente, como as ondas do mar…. No seu movimento pendular, arranca-nos as pessoas do peito e deixa, em seu lugar, memórias feitas de espuma que, a pouco e pouco, se perdem na voragem dos dias e das noites… Na onda seguinte, seja breve ou mais demorada, volta a trazer-nos, sem avisar, as pessoas que nos roubou, com marcas de outras vidas e misteriosos cantos de sereia... De repente, apercebemo-nos que a vida nos fez estranhos, que existe um mundo inteiro entre nós e que foi apenas o acaso que nos pôs frente a frente, convidando-nos, cinicamente, a entrar num jogo de memória, vencido à partida… O tempo leva, o tempo traz E nós, enredados nas suas ondas, fazemos de conta que o tempo não passou e lançamos ao mar dos afetos estilhaços de memórias fossilizadas.

Além

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Sidi Bou Said,Tunísia, 2005  Há 18 anos atrás escrevia assim: «Cada dia que passa aumenta a sensação de que o essencial está para além da realidade... Do que mais preciso é do que se esconde por detrás das estrelas...» Muito tempo passou, mas permanece intacta a necessidade de acrescentar à espuma dos dias, algo que escapa ao olhar apressado, a vontade de ir sempre mais além...

As amoras

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Ontem, foi tempo de revisitar memórias de infância e colher amoras silvestres... As amoras de que fala o poema de Eugénio de Andrade que a seguir transcrevo: O meu país sabe às amoras bravas no verão. Ninguém ignora que não é grande, nem inteligente, nem elegante o meu país, mas tem esta voz doce de quem acorda cedo para cantar nas silvas. Raramente falei do meu país, talvez nem goste dele, mas quando um amigo me traz amoras bravas os seus muros parecem-me brancos, reparo que também no meu país o céu é azul. (In:  O Outro Nome da Terra, 1988)

Lisboa

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Gosto desta cidade... Gosto da forma como, logo pela manhã, Lisboa me acolhe nos seus braços... Gosto das surpresas escondidas em cada viela. em cada praça, em cada fachada... Lisboa, a minha cidade do coração, ainda que não tenha nascido no seu regaço, dei à luz em Lisboa e a cidade fez-se luz, com o mesmo brilho que os meus olhos tinham naquela noite em que, junto ao Cais das Colunas, num mês de novembro já tão distante, decidi que esta cidade ia ficar para sempre colada à minha existência... Lisboa, cidade-mãe...

Ausência

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Há seis meses que partiste, pai... Logo pela manhã, a notícia chegou implacável, sem preparativos nem atenuantes... Logo naquele dia em que contávamos encontrar-te melhor, depois do sono profundo do dia anterior… Afinal, aquela ausência já era o início da tua viagem e nós não fomos capazes de ler os sinais. Estava tanto calor no quarto naquela tarde e não sabíamos que o teu silêncio, afinal, já era despedida e, por isso, não ficámos mais tempo. Desculpa, pai. Isso, porque fomos incapazes de ver para além do que os nossos olhos viam... Pensávamos nós que o teu tempo era ainda o nosso tempo... Agora o que guardo é, sobretudo, a lembrança da noite em que cheguei a tempo de te ver, de falar contigo, de te levar à sala do RX para a radiografia... Ficaste feliz de me ver...Vi o teu rosto iluminar-se, pai... Estava, finalmente, ali, depois de todas aquelas horas de ansiedade...Ajudei a trocar a tua roupa pela do hospital. E estavas tão calmo, pai... Tão sereno... Depois, despedi-...

Travessia

Para trás ficou a terra firme das certezas, a satisfação de coisa nenhuma... Hoje, apenas a necessidade absoluta de saborear a viagem amarga deste  mar revolto e a esperança de um dia me voltar a encontrar num cais distante. Dezembro/97

Primeiras fotos

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Corte Pinheiro - 1966/1967