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A senhora do parque

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Bem cedinho, dava a volta ao parque, balanceando as ancas de um lado para o outro, numa cadência que denunciava o peso da idade. Mais de 60 anos, talvez. É sempre difícil adivinhar a idade de quem carrega toda uma vida de trabalho. No dia seguinte, lá estava ela outra vez, nos seus passos decididos, percorrendo uma e outra vez o perímetro do jardim. No terceiro dia, finalmente trocámos algumas palavras. A Lucy, curiosa, aproximou-se, farejou e eu, receosa, puxei a trela rapidamente, não fosse a senhora sentir-se incomodada pela endiabrada cadela que está convencida que é o centro de mundo e todos os seres humanos à face da Terra a adoram. Mas não, a senhora esboçou um sorriso e disse que não fazia mal, que gostava de cães. Tinha muitos no seu quintal em São Tomé. E foi assim que iniciamos uma agradável conversa. Estava desvendado o mistério: era de São Tomé e veio para Portugal para fazer uma cirurgia ao joelho. Estava em casa da filha. Os passeios matinais faziam parte do programa de ...

Vida

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Cada cântico de pássaro, Cada gota de água no rio Cada barco ancorado Cada sílaba silenciada Cada pedra no caminho  Cada flor de madressilva, Cada passo,  cada abraço Cada flor de rosmaninho Cada olhar infinito Cada nascer de sol Tudo me fala desse milagre  que se revela dentro do peito em cada batimento  a que chamamos  vida.

Aurora

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A cadência dos passos na velha calçada marca o ritmo da primeira luz da manhã. A mistura de sons alegres dos pássaros dá profundidade à banda sonora original. O caminho segue por entre pedras, fragas e penedos. Arbustos vergam à passagem e sorriem, alegres, como se dissessem: Bom dia!  Ao longe, atrás do monte mais alto, espreitam, envergonhados, os primeiros raios de sol. A neblina azul sobre o vale dissipa-se, pouco a pouco. E, de repente, a vida explode nas suas cores e formas mais puras. Faço zoom e dou o primeiro plano aos minúsculos seres que povoam o caminho: o carreiro de valentes formigas em hora de ponta. Carregam volumosos fardos, sem vacilar. Indiferentes aos humanos que, na sua desumanidade, se afastaram há muito da natureza. Respiro fundo, fecho os olhos e, por momentos, guardo todas as imagens e sons dentro de mim. É como se, por magia, o tempo parasse e ficasse impresso ali mesmo, naquela paisagem. E eu, fóssil de mim mesma. Para sempre. Amo a terra, as ped...