A senhora do parque
Bem cedinho, dava a volta ao parque, balanceando as ancas de um lado para o outro, numa cadência que denunciava o peso da idade. Mais de 60 anos, talvez. É sempre difícil adivinhar a idade de quem carrega toda uma vida de trabalho.
No dia seguinte, lá estava ela outra vez, nos seus passos decididos, percorrendo uma e outra vez o perímetro do jardim.
No terceiro dia, finalmente trocámos algumas palavras. A Lucy, curiosa, aproximou-se, farejou e eu, receosa, puxei a trela rapidamente, não fosse a senhora sentir-se incomodada pela endiabrada cadela que está convencida que é o centro de mundo e todos os seres humanos à face da Terra a adoram. Mas não, a senhora esboçou um sorriso e disse que não fazia mal, que gostava de cães. Tinha muitos no seu quintal em São Tomé.
E foi assim que iniciamos uma agradável conversa. Estava desvendado o mistério: era de São Tomé e veio para Portugal para fazer uma cirurgia ao joelho. Estava em casa da filha. Os passeios matinais faziam parte do programa de recuperação. Havia colocado uma prótese no Hospital Beatriz Ângelo.
Elogiou o Serviço Nacional de Saúde e a forma como está a ser tratada em Portugal. Tão diferente do que acontece em São Tomé. Realçou, sobretudo, o facto de todos termos acesso aos serviços de saúde, independentemente da nossa situação financeira. Sem saber, tinha tocado num ponto essencial que tendemos a desvalorizar, talvez porque o damos por adquirido. Essa característica tipicamente portuguesa: acharmos que está tudo mal!
Aquela senhora, de sorriso rasgado e sereno, veio daquelas ilhas paradisíacas do equador para valorizar o nosso país e os portugueses!
Não sei o seu nome, mas o seu rosto parecia-me tão familiar. Confidenciei-lhe que a minha viagem de sonho era exatamente a São Tomé e Príncipe.
Despedimo-nos. Voltei a casa com o coração cheio e a sensação de que há um sentimento que nos une aos que, tal como nós, falam a língua de Camões e connosco partilham uma história de séculos, unidos numa portugalidade que extravasa o nosso território e se prolonga além do Atlântico.
Nesta história, qualquer semelhança com a realidade não é pura coincidência. Aconteceu mesmo. Há cerca de três meses, no parque perto de casa.

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